| |
|||
| Pesquisador analisa sexualidade de pessoas com Aids. |
|||
Uma pesquisa feita com dados do Estudo da Vida Sexual do Brasileiro (EVSB) descreve o comportamento sexual de pessoas com AIDS. “Os dados não refletem a realidade nacional, mas o estudo inova ao analisar a sexualidade erótica de pessoas com a doença, e não apenas os comportamentos de risco”, diz o médico Marco Scanavino, responsável pelo estudo. Os infectados disseram ter uma diversidade maior de tipos de relações sexuais (sexo grupal, sexo com animais, por exemplo). Disseram mais vezes terem sofrido violência sexual e terem comportamentos indicativos de compulsão sexual. Relataram também mais disfunções sexuais, como problemas de ereção. Os dados do EVSB resultam de um levantamento feito com 7.103 pessoas, em 18 grandes cidades nas 5 regiões do País, entre 2002 e 2003. Os participantes foram convidados a preencher um questionário anônimo com 87 perguntas. Uma delas questionava se o participante tinha AIDS. Cerca de 5.500 pessoas responderam à pergunta e 75 disseram ter a doença. O estudo é a base da tese de doutorado de Scanavino, apresentada na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que teve a orientação da sexóloga Carmita Abdo. “Mais da metade (59%) das pessoas com a AIDS disseram ter começado a vida sexual antes dos 17 anos, bem como não terem recebido educação sexual, nem concluído os estudos”, conta o médico, que integra a equipe do Projeto Sexualidade do Instituto e Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Ele lembra ainda que homens e mulheres relataram com mais frequência as seguintes práticas: sexo grupal, troca de casais, sexo com animais, ter tido ao menos uma relação homosexual em sua história, ter tido relações com profissional do sexo. Também disseram com uma frequência maior precisarem de objetos para se excitar, terem tido alguma vez comportamento sado-masoquista, exibicionista ou voeyurista. “Declararam com mais frequência sentir desejo por sexo mais de uma vez ao dia”, descreve. Comparados com homens sem AIDS, os homens com a doença relataram mais sexo não vaginal e mais relações por semana. Informaram menos sexo oral e mais casos extraconjugais. As mulheres com HIV disseram com mais freqüência já terem feito sexo sob efeito das drogas. Elas também relataram mais não ter tido atividade sexual nos últimos 12 meses. Segundo Scanavino, após o diagnóstico de AIDS a sexualidade fica abalada e atividade sexual pode diminuir. Abuso, disfunções e compulsão Outros dados do estudo também revelam que os pesquisados com AIDS informaram mais disfunções sexuais. As mulheres disseram ter mais dificuldade de manter a excitação até o final do sexo. Homens com AIDS relataram mais demora em ejacular, sentir dor durante o ato sexual e terem problemas de ereção completa. Cerca de 18% de participantes com AIDS disseram já ter sido vitimas de violência sexual, uma frequência seis vezes maior do que quem afirmou não ter a doença. Eles também tiveram mais sintomas indicativos de compulsão sexual (fantasias e práticas sexuais exageradas e às vezes perigosas). Relataram indícios de uma sexualidade mais genital: disseram ter menos preliminares, menos necessidade de um clima apropriado para se engajar no ato sexual. Consideraram menos importante para o sexo a afetividade, a intimidade e o interesse do(a) parceiro(a). "A violência sexual na infância e adolescência",explica Scanavino, "predispõe a determinados transtornos sexuais, entre eles a compulsão sexual. Tenho a hipótese de que essa doença pode levar a comportamentos de risco para a AIDS". Segundo o pesquisador, o modelo do estudo é inovador. “O mais interessante da pesquisa é o tipo de informação obtida, a respeito da saúde sexual dos que vivem com o HIV/AIDS. Encontramos comportamentos que indicam a presença de transtornos sexuais. É fundamental oferecer cuidados à vida sexual dos portadores da doença. Sentindo-se mais satisfeitos poderão aderir mais facilmente ao sexo seguro, favorecendo o controle da epidemia."
Texto: Nilbberth Silva |
|||
| |
|||
| Para imprimir, utilize a opção de impressão do seu navegador |
|||
|