Cerca de 31% dos motoristas podem ser penalizados pela nova lei de trânsito.
 
Untitled document

Em meio a mudanças na legislação do Código de Trânsito Brasileiro, que agora proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em qualquer quantidade por condutores de veículos, 31% dos 5.250 motoristas que aceitaram participar de uma pesquisa realizada pela Unifesp pagariam multa e teriam suspensa a Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

O índice é a soma, tanto dos motoristas que apresentaram alcoolemia acima dos 6 decigramas de álcool por litro de sangue (19,3%), anteriormente permitido por lei, quanto dos que foram pegos com valores abaixo do limite (11,8%). Os números encontrados nesta pesquisa são cerca de seis vezes mais elevados do que os apontados por pesquisas semelhantes realizadas em outros países.

O estudo realizado entre janeiro de 2005 e dezembro de 2007 em cinco cidades brasileiras (São Paulo, Diadema, Santos, Belo Horizonte e Vitória), também mostra que, para 41% deles, a bebida não é impedimento para sair dirigindo.

De acordo com Sergio Duailibi, médico do trabalho e um dos coordenadores do estudo realizado pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp, 19,4% dos participantes relatou que prefere dirigir, mesmo após ter bebido, pois considera que a bebida não atrapalha seu desempenho ao volante. Destes, 4,4% acreditam que dirigem melhor após beberem. “Outros 17% consideram uma estratégia razoável sair dirigindo devagar após ingerir álcool e, 4,3%, acreditam minimizar os prejuízos à coordenação motora com um simples cafezinho”, afirma.

Para 9,4%, a medida mais adotada após beber é aguardar um tempo para depois dirigir. Entretanto, o pesquisador explica que esta medida só é eficaz se as quantidades de álcool ingeridas forem pequenas e, de preferência, em meio a alguma refeição, o que ajuda a diminuir a quantidade de bebida absorvida pelo organismo. “O álcool diminui a eficiência cerebral, fazendo com que os olhos demorem mais tempo para receber as mensagens e o processamento das informações e as instruções para os músculos ficam mais lentas, reduzindo em até 30% a velocidade do tempo de reação de uma pessoa”, afirma Duailibi. “Estes efeitos são mais intensos quanto menor for a tolerância do organismo ao álcool e, em adultos jovens, o risco de acidentes aumenta após a primeira dose de bebida, dobra após a segunda e eleva em dez vezes após a quinta dose”.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que também coordenou a pesquisa e é responsável pela Uniad, é possível supor que os resultados elevados apresentados por este levantamento pudessem até ser mais expressivos caso esta pesquisa fosse obrigatória, pois vários motoristas que se recusaram a participar apresentavam evidentes sinais de embriaguez.

Do total de entrevistados, 33,6% já estiveram envolvido em acidentes de trânsito na condição de motoristas e, dirigir alcoolizado, foi a quarta infração considerada mais grave por eles, perdendo para as ultrapassagens perigosas, pelo excesso de velocidade e por avançar o sinal vermelho.

Cerveja é a preferida entre os motoristas

Os dados referentes aos indivíduos pesquisados com resultados positivos quanto à presença de álcool nos bafômetros, a positividade foi esmagadoramente maior na população masculina (88,2%), solteira (77,9%), com renda familiar entre quatro e sete salários mínimos (59,3%) e com idade inferior a 30 anos (79,5%).

Dos 5 mil motoristas abordados, 82,8% afirmaram já fazer uso de bebida alcoólica, 38,5% a ingerem pelo menos duas vezes na semana, sendo a cerveja a líder no ranking de consumo, com 39%. Em seguida, vêm os vinhos e champanhes (20%), as destiladas cachaça e pinga (19%) e as bebidas ice (13%).

Bafômetros foram bem aceitos pelos motoristas

A pesquisa abordou no total 6356 motoristas nas cinco cidades. Destes, apenas 26,7% se recusaram a participar da entrevista e ter seus níveis de álcool avaliados por bafômetros ativos (que necessitam que o condutor assopre) e passivos (que captam o ar expirado mediante uma bomba de sucção acionada pelo pesquisador). Quando foram utilizados os bafômetros passivos, o índice de recusa foi de 15%, consideravelmente menor.

Outro ponto que se mostrou favorável na pesquisa foi que cerca de 70% dos motoristas têm interesse em apoiar políticas preventivas e fiscalizadoras que incluam a utilização de bafômetros para ajudar a reduzir os acidentes de trânsito no país. Apenas 15,8% afirmaram não apoiar o uso do equipamento para medir a alcoolemia diante do volante.

Sessenta e seis por cento dos pesquisados também apoiaram medidas restritivas no trânsito, tais como aumentar a fiscalização nas ruas e estradas e uma aplicação mais rigorosa do Código Brasileiro de Trânsito. “Isto pode representar o início de uma reação popular ao número crescente de acidentes de trânsito e suas graves conseqüências como afastamentos do trabalho, hospitalizações, invalidez transitória ou permanente, mortes e toda a repercussão socioeconômica que traz para a família da vítima em particular e para toda a sociedade”, afirma Laranjeira.

O psiquiatra explica que o uso do bafômetro é, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma das medidas mais eficazes para reduzir acidentes fatais relacionados ao álcool, mostrando uma redução de 20% nesse tipo de ocorrência nas comunidades onde os postos de fiscalização com os equipamentos são realizados semanalmente. “Em nossa pesquisa, apesar de os pesquisadores serem devidamente treinados para identificar motoristas alcoolizados, eles não conseguiram encontrar sinais de intoxicação na grande maioria dos casos positivos, acima dos limites permitidos anteriormente pela lei”, afirma. “Os pesquisadores acharam sinais de intoxicação alcoólica óbvia em apenas 29,7% dos casos altamente positivados.”

Fonte: Unifesp

 

 
 
Para imprimir, utilize a opção de impressão do seu navegador
 
Voltar