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Tese aponta fatores associados ao excesso de peso em crianças.
   

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Um estudo realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) concluiu que não fazer exercícios físicos fora da escola e não morar com ambos os pais são fatores que aumentam as chances de crianças e adolescentes apresentarem excesso de peso (EP). Esses são alguns dos resultados da tese de doutorado Fatores associados ao excesso de peso e perfis de consumo alimentar de adolescentes, defendida pela nutricionista Letícia de Oliveira Cardoso, que pesquisou os fatores associados ao excesso de peso e identificou perfis de consumo e comportamento alimentar entre crianças e adolescentes matriculados na rede pública municipal de ensino do Rio de Janeiro.
 
O estudo foi apresentado em forma de três artigos. Primeiro, foi feita uma revisão sistemática de artigos científicos publicados em periódicos indexados, os quais identificavam fatores sociais, ambientais, psicológicos e/ ou comportamentais associados ao EP entre adolescentes. Os resultados dessa revisão foram publicados na Revista Brasileira de Epidemiologia.

O segundo e o terceiro artigos, ainda em processo de publicação, têm o objetivo de identificar fatores associados ao excesso de peso no nível individual e da escola, bem como descrever as prevalências de perfis de consumo e comportamentos alimentares de adolescentes matriculados na rede pública municipal de ensino do Rio de Janeiro. "A concepção e realização do estudo é fruto de minha participação, desde 2002, num grupo de trabalho que idealizou e implementou o sistema de vigilância de fatores de risco para a saúde de adolescentes matriculados em escolas públicas na cidade do Rio de Janeiro", observa Letícia.

De acordo com Letícia, o excesso de peso, incluindo a obesidade, é considerado um dos maiores problemas de saúde pública na atualidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o agravo coexiste com a subnutrição numa escala de epidemia global, denominada globesidade. A obesidade é uma condição de natureza complexa, que afeta todas as idades e grupos socioeconômicos. Segundo estimativas, em 1995, havia cerca de 200 milhões de adultos e 18 milhões de crianças menores de 5 anos obesos no mundo. No ano 2000, o número de adultos obesos aumentou para mais de 300 milhões.

O relatório da Força Tarefa Internacional contra a Obesidade Infantil, divulgado em 2002, revelou que 10% das crianças e adolescentes do mundo apresentavam EP. Essa epidemia não está restrita a países ricos; nos países de baixa e média renda, estima-se que mais de 115 milhões de pessoas sofram por problemas relacionados à obesidade. O excesso de peso tem se tornado um problema grave na Ásia, América Latina e em algumas partes da África, apesar da presença ainda significativa da subnutrição. Estudos conduzidos na América Latina têm mostrado altas prevalências de EP.

Segundo a aluna, resultados mais recentes do Inquérito de Saúde e Nutrição (Ensanut) realizado no México revelaram estimativas de EP ainda mais altas em adultos: 71,9% em mulheres e 66,7% em homens. Também chamam a atenção as prevalências de excesso de peso entre os grupos mais jovens da população: 32,5% e 31,2% entre meninas e meninos de 12 a 19 anos, respectivamente, e cerca de 26% entre crianças com idade entre 5 e 11 anos.

Os resultados do estudo apontam que a frequência de EP nas escolas analisadas variou entre 0 e 50%, e a prevalência média foi de 17,2%. Observou-se que os adolescentes que apresentaram maior chance de EP foram os que estudavam em escolas que não disponibilizavam garfos e facas ou pratos de vidro no refeitório, os que não moravam com ambos os pais, aqueles cujos pais apresentavam 8 a 10 anos completos de estudo (comparados aos que apresentavam 7 anos ou menos e 11 anos ou mais) e ainda, entre aqueles que não realizavam atividade física fora da escola (em pelo menos um dia nos sete dias anteriores à pesquisa).

Letícia explicou que variáveis sociodemográficas e comportamentais dos adolescentes e características da escola apresentaram associação com o EP, reforçando a existência de efeitos individuais e contextuais sobre esse agravo à saúde. "Estudos que identifiquem variáveis contextuais, podem subsidiar ações de prevenção do EP entre adolescentes. Embora a análise da efetividade de intervenções para prevenção e controle do EP apresente resultados por vezes conflitantes, seja analisando intervenções com foco no indivíduo, na família ou no ambiente, um desafio maior é transformar programas de intervenções efetivas em ações presentes nas políticas públicas", destaca.

De acordo com ela, autores que observaram a estabilização e declínio do excesso de peso em seus países sugerem que esses resultados foram alcançados graças ao somatório de esforços em ações específicas mais dirigidas ao público-alvo e ações de maior amplitude que atingem toda a sociedade. Citam como exemplo ações locais em unidades de saúde, nas escolas, clubes para promoção da alimentação saudável e atividade física e ações mais gerais, como o aumento do nível de consciência da população em relação ao sobrepeso, hábitos alimentares e atividade física e a regulação da mídia sobre propagandas dirigidas ao público infantil. "A necessidade da ampliação e integração de ações de diversos setores é, portanto, urgente no cenário nacional", enfatiza Letícia.

Resultados apontam necessidade de intervenções efetivas de políticas públicas

No Brasil, os incrementos do sobrepeso e da obesidade têm sido amplamente documentados desde os anos 80. Resultados de pesquisas de amplitude nacional conduzidas nos anos de 1974 e 1975, 1989 e 2003 revelam "um aumento intenso e contínuo da prevalência de excesso de peso na população masculina, que passou de 18,6% em 1974 e 1975 para 29,5% em 1989, atingindo 41,0% em 2003. Já, na população feminina, a evolução foi distinta; após o aumento de 28,6% para 40,7% observado no primeiro intervalo de tempo (entre 1974 e 1989), houve uma aparente estabilização, com prevalência de excesso de peso próxima a 40% em 2003", destaca Letícia.

Esses agravos também vêm aumentando em ritmo acelerado entre crianças e adolescentes brasileiros ao longo das últimas décadas. Segundo a nutricionista, resultados de dois grandes inquéritos nacionais realizados nos anos 70 e 90 mostram que o sobrepeso aumentou de 4,9% para 17,4% entre crianças de 6 a 9 anos; e de 3,7% para 12,6% entre os jovens de 10 a 18 anos. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, 2002/03), o sobrepeso já atingia 16,7% dos adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos, sendo os meninos o segmento com prevalência de sobrepeso mais elevada (18%) quando comparados às meninas (15,4%). "O excesso de peso é um problema preocupante, não somente porque já afeta uma grande proporção da população, mas também porque tem acometido estratos cada vez mais jovens", adverte.

Fonte: Informe Ensp

Publicado em: 30/05/2010

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