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Superioridade do futebol brasileiro tende a se perpetuar.
   

Somos cinco vezes campeões do mundo e nossa seleção há tempos é primeira colocada no ranking da FIFA. Na copa da Alemanha, segundo boa parte das opiniões, seremos novamente campeões. O favoritismo parece evidente.
 
E os nossos jogadores? Ao longo da história, vários se destacaram. Pelé foi considerado o atleta do século passado. Sem falar nos "Ronaldos": o "Fenômeno", eleito por três vezes o melhor do mundo (1996, 1997 e 2002) e o "Gaúcho", em duas oportunidades (2004 e 2005). Além deles, Romário (1994) e Rivaldo (1999) também foram reconhecidos pela FIFA como os melhores do mundo. Vale lembrar ainda ídolos de todos os tempos como Leônidas, Didi e Garrincha, entre tantos outros.
 
Há quantidade e qualidade suficiente de jogadores para montar 4 seleções brasileiras
 
A superioridade brasileira no esporte não pára por aí. Afinal, segundo o professor José Alberto Aguilar Cortez, do Departamento de Esporte da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, o Brasil tem capacidade de formar quatro seleções, todas competitivas. Essa facilidade, segundo ele, vem da "quantidade que acaba resultando em qualidade". Além disso, ele acredita que o fator étnico também tem influência em nossos jogadores. "Nosso país reúne diversas etnias e essa mistura de raças acaba revelando a facilidade que o brasileiro tem de se expressar pelo movimento", diz.
 
Ele lembra a influência negra, que traz ao jogador brasileiro o diferencial da explosão. "É o caso do Garrincha. Seus dribles eram quase sempre os mesmos. A diferença estava na arrancada, na explosão. Quando o adversário menos esperava ele já tinha ido", exemplifica. Para o professor, essa mistura étnica aliada à quantidade e à capacidade de improvisação tornam diferenciados os jogadores brasileiros.
 
O historiador e professor emérito da USP, José Sebastião Witter, também credita à improvisação um dos principais fatores que fazem do brasileiro o melhor do mundo. Amante do futebol há mais de 40 anos, Witter estuda o assunto desde a década de 1970. "A superioridade do jogador brasileiro é incontestável e sua genialidade, imprevisível. Podemos compor cinco seleções de bom nível", opina. Ele destaca fatores como a origem pobre da maioria de nossos jogadores e a habilidade inata para o esporte como principais componentes para que nossos atletas sejam os melhores. "Aqui praticamente já se nasce com a bola nos pés". Saudoso, Witter se recorda de quando viu jogar Leônidas da Silva, um dos eternos "ícones" do futebol brasileiro.
O professor Cortez lembra que muitos dribles, toques e jogadas são inventadas por aqui. Esta genialidade, que em muitos casos tem feito a distinção entre o jogador brasileiro e os outros, é que torna nossos atletas tão diferenciados. "O futebol é um esporte que exige decisões rápidas. Nossos atletas, nesse conceito, são privilegiados, pois aliando essa capacidade à habilidade, o resultado é a jogada decisiva". O professor Witter cita como exemplo o atual "melhor do mundo", Ronaldinho Gaúcho. "Para que se anule um atleta como esse, será necessário que o adversário disponha de mais de um jogador para marca-lo. É aí que se pode destruir um esquema!", avalia. Num clássico do campeonato espanhol deste ano contra o Real Madrid, o jogador conseguiu, em jogadas individuais, ser decisivo para a vitória de seu time, o Barcelona.
 
Vitor José Barbanti, que é professor de Teoria do Treinamento Esportivo na EEFE, atribui o sucesso de nossos futebolistas também ao aspecto cultural. Para ele, além da questão étnica, o famoso "jeitinho" brasileiro é importantíssimo no campo de jogo. "No futebol, um dos objetivos é justamente enganar o adversário. É aí é que entra o popular jeitinho brasileiro. Afinal, para tudo temos uma solução", diz. Barbanti também cita a facilidade que temos em adquirir habilidades, principalmente nos esportes coletivos. "Nosso vôlei é hoje o melhor do mundo. O basquetebol, apesar da falta de organização, também já obteve títulos internacionais. Sem falar no futsal, cinco vezes campeão mundial", lembra.
 
Assim como Cortez, Barbanti destaca a versatilidade que o jogador brasileiro possui em criar jogadas. "O Leônidas criou a bicicleta. As famosas pedaladas também surgiram aqui", cita. Quanto ao aspecto étnico, que na visão de Barbanti também é essencial na formação do jogador brasileiro, ele ressalta que nosso País é o que tem a maior mistura de raças em todo o planeta. "Junte tudo isso à quantidade e você terá os melhores jogadores do mundo", receita o professor. "Nossa seleção considerada reserva tem plenas condições de disputar o mundial".
 
E os outros?

Adversários a altura, o Brasil sempre terá. Afinal, no resto do mundo é visível o esforço para se equiparar não somente em relação às habilidades com a bola, mas na organização de esquemas. E o futebol não é um esporte totalmente lógico e previsível. Nesta copa, Cortez alerta para adversários como Japão e Austrália, ambos na primeira fase, que fazem exatamente o tipo de jogo que o brasileiro não gosta. "Eles deverão atuar com uma marcação intensa, incansável". Witter também cita o Japão de forma positiva, mas pelo aspecto evolutivo. "Assim como nos EUA, lá o esporte já tem muitos adeptos", afirma.
 
A diferença em relação aos argentinos, nossos tradicionais adversários, segundo Cortez, reside no fato de eles terem um maior sentido de equipe. "Eles podem não ter jogadores em quantidade como nós, mas têm uma escola muito boa de futebol, com maior noção do coletivo. Lutam o tempo todo e no campo inteiro", diz.
 
O professor Witter vê de maneira positiva o futebol africano. "As habilidades deles são muito semelhantes às nossas. Quando eles levarem o futebol mais a sério, certamente darão muito trabalho em torneios mundiais", avisa.
 
Barbanti recorda de algumas viagens e experiências em países da Europa. "É incrível vermos as crianças na Dinamarca ou na Holanda, por exemplo, quando participam de um treino de futebol. Todos em fila, ordenados e atenciosos aos treinadores", conta. "Tente juntar um grupo de crianças aqui no Brasil e mantê-los ordenados, quietos e atenciosos. Impossível!", garante o professor. "Para os nossos pequenos, o futebol é pura diversão". Quanto aos argentinos, o professor vê a grande diferença na quantidade, lembrando que o Brasil é o maior exportador de jogadores em todo o mundo.
 
Organização

Todos são unânimes em dizer que o jogador brasileiro é o melhor do mundo. Mas, e quanto a organização? Ruim, falha, amadora, péssima, entre ouros adjetivos.Enquanto em outros países vários são os esforços para melhor organizar e planejar o futebol, por aqui ainda falta muito. Cortez critica o amadorismo nas categorias de base dos clubes profissionais brasileiros. "Os departamentos de base dos clubes deviam ser terceirizados", recomenda. Segundo o professor, em países da Europa, os jovens jogadores são avaliados desde cedo no aspecto técnico, tático, físico e psicológico. "Por aqui, as coisas não ocorrem desta forma e as categorias inferiores são dirigidas ainda de forma amadora. A maioria dos técnicos das equipes principais não sabe o que acontece na base", lamenta.
 
Witter faz críticas aos "cartolas". "Dentro de campo somos os melhores. Mas fora dele...". Para esta copa, os professores são cuidadosos em seus palpites, apesar do favoritismo e da superioridade do jogador brasileiro. Mesmo porque a imprevisibilidade do futebol é um fator destacado por todos. Barbanti acredita que, se não acontecer uma espécie de "disputa de egos" entre as principais estrelas, o Brasil pode alcançar o título. Já Witter acha "difícil" trazermos essa copa. "Para mim, se sairmos antes não será surpresa". O professor Cortez, assim como Witter, preocupa-se com o excesso de confiança e com a "festa" que está sendo a concentração brasileira. "Espero que os jogadores não entrem nesse clima", diz.
 
Texto: Antonio Carlos Quinto
Fonte: Agência USP

Publicado em: 09/06/2006

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