Você já deve ter conhecido vários casais que engordaram após o casamento. Cientistas agora se esforçam para explicar porquê isso acontece. A SGPM - "Síndrome da Gordura Pós-Matrimonial", atinge nove entre dez casais do país e é bem provável que esta proporção se aplique ao mundo inteiro.
Casais como Marcelo e Cláudia de Souza, Eduardo Arcon e Kelly Casarin, e Sílvio e Marília dos Santos são um bom exemplo. Nos três casais, os homens engordaram bem mais do que as mulheres. "No balanço geral, entre ganhos e perdas de peso ao longo dos três anos de convivência, eu engordei muito mais. Tive de aumentar as casas do cinto porque a barriga não parava de crescer, parecia que eu estava grávido" conta Eduardo Arcon, 31 anos, que mora em São Paulo e ganhou 12 quilos por conta da "SGPM". Kelly, 26, tinha 53 quilos antes de casar e hoje soma mais cinco na balança.
Já com o casal carioca Sylvio, 40, e Marília dos Santos, 35, a discrepância foi maior. Depois de 10 anos e dois filhos, ela engordou pouco, ao passo que ele chegou a acumular quase 30 quilos a mais em sua massa corpórea. Com poucas diferenças, a história se repetiu com o casal Marcelo, 38, e Claudia de Souza, 25, também do Rio. Casados há seis anos e com dois filhos, além de uma enteada, eles ganharam juntos 15 quilos depois que passaram a viver sob o mesmo teto. Detalhe: ela só engordou dois quilos, que conseguiu perder nos últimos meses, enquanto o marido: "Meu maior problema também era a barriga, que se avolumava sobre a calça", diz.
Para o endocrinologista Walmir Coutinho, coordenador da Força-Tarefa Latino-Americana de Obesidade, está mais do que provado que o casamento é uma circunstância de vida freqüentemente associada ao ganho de peso. "Isso se deve às importantes mudanças de estilo de vida por que o casal passa. Às vezes, nem é necessário o casamento para produzir essas mudanças. Qualquer relacionamento afetivo mais sério já pode ocasionar mudanças de hábitos que favorecem o ganho de peso", diz o especialista.
Segundo a presidente da Aperj - Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro, é muito freqüente que os casais dêem uma "relaxada" depois do casamento. "É como se eles já não precisassem mais se cuidar e se produzir tanto para sair em busca de novas conquistas". Para ela, a mudança na rotina também pode contribuir para o ganho de peso. "Muitas pessoas se casam e deixam de ir à academia ou de fazer caminhadas, alegando falta de tempo", diz ela, que defende a "atitude de conquista" não só antes, mas durante todo o casamento.
A psiquiatra também diz que o casamento, desde a preparação, também pode envolver situações estressantes. "Casamento é um rito de passagem que, dependendo de cada um, pode provocar ansiedade. Sair da casa dos pais, assumir um compromisso, perder a liberdade da vida de solteiro, tudo isso pode ser o gatilho para uma compulsão alimentar", explica. Estudos mostram que o estresse crônico libera cortisona, hormônio que aumenta o apetite e provoca acúmulo de gordura, normalmente no abdômen.
"Os homens costumam engordar mais do que as mulheres, e muitas vezes elas engordam porque resolvem acompanhar os maridos. Apesar disto, quem costuma se preocupar mais com o peso é a mulher", afirma Cinthya. De acordo com o endocrinologista Walmir Coutinho, o homem engorda mais na barriga, e a mulher tende a acumular mais gordura na coxa e no bumbum. "A gordura típica do homem traz mais riscos para a saúde, enquanto que a da mulher não é tão perigosa, mas é mais difícil de queimar", afirma.
Segundo Walmir Coutinho, no consultório, a proporção é de um homem para cada seis mulheres que procuram tratamento para emagrecer. "Independente de quem procure o médico primeiro, o importante é envolver o casal na proposta de mudança de hábitos de vida" afirma. Para Marcelo e Claudia de Souza, que acordaram para a necessidade de cuidar do peso em virtude de alguns "sustos", a mudança de hábitos, principalmente a reeducação alimentar, deve incluir os filhos desde muito cedo.
Depois de chegar a pesar 95 quilos, Marcelo, que também é fumante e sedentário, teve alguns problemas de pressão alta e resolveu emagrecer. Agora, depois de passar quase um ano comendo menos doces, evitando comidas oleosas e tomando um medicamento que inibe a absorção de um terço da gordura ingerida, ele está com 86 quilos, ou seja, na faixa de peso considerada ideal. Também sedentária ("por falta de tempo"), a "patroa" mantém o peso com uma dieta balanceada e pouca gordura.
Com o casal Eduardo e Kelly, a história hoje é um pouco diferente. "Antes do casamento, nenhum de nós tinha o costume de fazer exercícios. Mas depois que casamos e começamos a engordar, ficamos preocupados. Resolvemos, então, nos mexer. Agora fazemos caminhadas e até há pouco tempo, freqüentávamos uma academia de ginástica. Paramos de ir à academia porque começamos a fazer uns cursos. Infelizmente, ou você faz uma coisa ou outra, ainda mais em uma cidade como São Paulo", lamentam.
Solução em Conjunto
Na opinião de Walmir Coutinho, é importante que o estilo de vida saudável passe a ser encarado como prioridade pelos casais. "A prática de atividades físicas não deve ficar restrita ao horário que sobra; ela tem de estar programada como uma rotina. Para isso, é essencial que ela seja prazerosa e não exclua o parceiro. Muitos casais incorporam a atividade física no convívio conjugal, freqüentando uma mesma academia ou praticando caminhadas a dois", diz.
Segundo Walmir Coutinho, a mudança de hábitos deve se aplicar a ambos, mas o tratamento clínico da obesidade precisa ser sempre individualizado. Alguns aspectos do problema de peso são característicos do sexo feminino. "É muito comum encontrarmos nas mulheres o excesso de peso e a obesidade associados à depressão ou à síndrome pré-menstrual. Se estes problemas não forem devidamente abordados, dificilmente o tratamento para emagrecer será bem sucedido" alerta. No Brasil, para cada três obesos, dois são mulheres.
Os conselhos de Eduardo e Kelly para os recém-casados e para os que pretendem se casar seguem a mesma linha. "Não deixem de se exercitar. Passeios pelo bairro a dois podem ser muito divertidos e saudáveis, tanto para o físico quanto para a relação. Quebrem a rotina e os costumes dos pais, inventando saladas com folhas bem temperadas". Para eles, desde que haja limites, é possível comer de tudo. "Feito a dois, o controle da alimentação até reforça o afeto entre o casal, que pode se manter mais bonito e saudável por mais tempo", finalizam, já vacinados contra a "SGPM - Síndrome da Gordura Pós-Matrimonial".
Texto: Cassiano Sampaio
Fonte: Redação Saúde em Movimento